terça-feira, 9 de março de 2010

Pesquisa revela que programas de paridade entre sexos não têm sido efetivos

Pesquisa revela que programas de paridade entre sexos não têm sido efetivos


Correioweb - 


06/03/2010 12:54


 
Tânia Fontelene, pesquidadora do Centro de Pesquisa Aplicada da Mulher

As mulheres desejam ter uma carreira de sucesso. Isso, porém, nem sempre é possível. Muitas vezes, para elas, é extremamente complicado chegar a um cargo de liderança. É que o monitoramento da paridade entre os sexos tem sido falho, como mostra pesquisa da empresa global de consultoria empresarial Bain & Company. 

O estudo, realizado com 1.834 participantes, revelou que em 75% das empresas a alta administração não implantou a paridade entre homens e mulheres como prioridade visível e declarada, enquanto 80% das empresas não alocou recursos nem fez investimentos adequados para as iniciativas.

Segundo Orit Gadiesh, presidente do conselho da Bain e coautor do estudo, "é possível conquistar a paridade entre os sexos no local de trabalho se os líderes das empresas adotarem uma abordagem sistemática e personalizada para descobrir o que prejudica a trajetória das mulheres nas organizações". 

A conclusão a partir dos resultados foi de que falta de processos estruturados, ações bem sucedidas e o amplo monitoramento da paridade entre os sexos - em todos os níveis da organização - são as principais causas da continuidade na estagnação de muitas mulheres que aspiram ocupar cargos de liderança em suas carreiras.

A pesquisadora do Centro de Pesquisa Aplicada da Mulher e autora do livro Mulheres no topo de carreira: persistência e flexibilidade, Tânia Fontenele, concorda que definitivamente, nos cargos mais elevados, não há paridade entre os sexos. "Nos cargos intermediários ou na base da pirâmide isso não é tão evidente, mas quanto mais alto ele for, menos a participação das mulheres", afirma ela. 

No entanto, Tânia aponta outros fatores para essa falta de mulheres em postos de liderança: "Há um contexto sócio-cultural que interfere. Dependerá da mulher também, do seu perfil psicológico. Tem mulheres que querem trabalhar só seis horas diárias e quando se está em um cargo alto terão que trabalhar mais. E não dá para negar que existe preconceito, além de que como são homens que estão em cargo mais altos, eles acabam nomeando homens também". 

Dentro das empresas, a pesquisa da Bain & Company mostrou que um dos grandes problemas enfrentados por elas é a insuficiência de dados para avaliar com precisão a situação atual da paridade entre os sexos. Menos da metade dos entrevistados sabia dizer se suas empresas conduziam avaliações sobre o percentual de mulheres contratadas, de mulheres promovidas ou de mulheres mantidas em seus cargos.

Outro impasse é a comunicação. As corporações têm dificuldade de comunicar ou estimular a participação de seus empregados no projeto e na contribuição para o programa de paridade entre os sexos em suas organizações. Aproximadamente 60% dos entrevistados relataram que suas empresas não solicitam nenhuma informação sobre o desenvolvimento de iniciativas de paridade entre homens e mulheres. 

Quanto aos sacrifícios em nome da família, homens e mulheres se comportam de forma diferente. Dos homens, 56% concordaram que tanto o homem quanto a mulher pode ser o principal responsável pelos cuidados de uma criança, em comparação com 80% das mulheres. Quase 80% dos homens concordaram que suas esposas ou parceiras sacrificariam as carreiras, enquanto apenas 45% das mulheres declararam que seus esposos ou parceiros fariam o mesmo. As mulheres relataram que estão duas vezes mais propensas a seguirem uma carreira flexível, ou a tirarem licenças, e estão três vezes mais propensas a trabalharem meio período. 

Especialistas da UnB traçam panorama das mulheres do século XXI


Secretaria de Comunicação da UnB - Bras'ilia, 8 de março de 20I0

 Especialistas da UnB traçam panorama das mulheres do século XXI

Em 1910, foi instituído o Dia da Mulher, 8 de março. Cem anos depois, ainda há muito pelo que lutar, segundo especialistas ouvidas pela UnB Agência. “No imaginário social de hoje, as mulheres persistem inexistentes na memória histórica, em termos de poder, criação, ação. Apenas com a história social das mulheres, desenvolvida pelas feministas, é que se percebe o imenso abismo onde foram jogadas as mulheres, para melhor desaparecerem", afirma a professora Tânia Navarro Swain, do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB).

 

"Encontramos artistas, poetas, escritoras, pintoras, musicistas, rainhas, suseranas, guerreiras, que foram simplesmente apagadas da história e da memória social”, lembra. A professora Tânia Montoro, da Faculdade de Comunicação, complementa: “Conhecemos muito pouco as nossas cientistas mulheres. A ciência também foi feita de descobertas femininas”.

 

Para comemorar os 100 anos do Dia Internacional da Mulher, o Decanato de Extensão (DEX) da UnB e os departamentos de Saúde Coletiva e de Enfermagem promovem palestra da professora Daphne Rattner, que fará um panorama histórico das lutas e conquistas das mulheres no último século. A iniciativa tem o apoio da Rede pela Humanização do Parto e do Nascimento (ReHuna) e do grupo Ciranda de Mulheres. Na ocasião, também será exibido o vídeo Prazer no Parto (veja lateral).

 

Daphne explica a importância de trazer o debate sobre as questões de gênero para o ambiente acadêmico: “Em primeiro lugar, as mulheres são maioria na universidade. É importante conhecer a história de lutas e conquistas femininas para perceber que há muito o que comemorar", diz. "Considero que se vive numa época privilegiada para ser mulher. Ainda há diferenças, mas há muitas conquistas que não podem passar em branco”.

 

Ditadura do corpo

Para a pesquisadora Tânia Fontenele, um dos desafios a serem enfrentados é a cobrança social em relação à estética das mulheres. Ela explica que essa preocupação está além do corpo e da saúde. “Lamento isso porque num país tão diverso como o nosso, o padrão de beleza é pesar 45 kg, ter o cabelo loiro e liso, olhos azuis. É um padrão cruel e limitante”, reclama.

 

Tânia Montoro acredita que os meios de comunicação ainda são muito machistas. “Ao invés da ditadura do patricarcado, vivemos a ditadura do corpo. Num país de multiculturalismos racial e genético, o padrão de beleza deixa de fora negras, indígenas, imigrantes e qualquer outra mulher que não tiver esse padrão”, explica. Ela diz que as indústrias farmacêutica, de cosméticos e cultural promovem um excessivo consumo da beleza, criando mulheres com problemas como bulimia, anorexia e depressão profunda. E aponta a ausência da mulher madura, com mais de 50 anos, nos meios de comunicação. “É como se a função social da mulher acabasse com o fim da fase reprodutora”, diz.

 

Violência

Ana Liési Thurler, doutora em Sociologia pela UnB, acredita que as relações de gênero ainda determinam a condição da mulher na sociedade atual. “A violência não é um detalhe na história da mulher, é um marcador nas relações de gênero”. Helenice Gama Dias de Lima, psicóloga do 1º Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, conta que a violência contra a mulher é real e sempre existiu. A diferença é a punição ao agressor. “Hoje, a violência é crime. A minha experiência tem me mostrado que as mulheres estão mais encorajadas a denunciar. Antes o agressor não sentia a ressonância do ato dele”, explica.

 

“A violência contra as mulheres só diminui na medida da conscientização e da resistência dos movimentos das mulheres, das feministas, daquelas que não aceitam a dominação da metade da população pela outra metade, pela simples representação social de inferioridade que é marca da definição das mulheres enquanto tais”, explica Tânia Navarro. “O século XXI tem um caminho enorme a ser percorrido para que as mulheres deixem de ser cidadãs de segunda classe ou vistas apenas como carne a ser consumida, com parâmetros bem definidos de beleza e disponibilidade”